História

Os primitivos povoadores do sertão ao mesmo tempo em que se sentiam atraídos pela abundância de terras, buscavam encontrar refrigério para as suas boiadas. Entre estes colonizadores estavam Domingos Jorge Rodrigues, que em 1752 ao requerer data de sesmaria dizia ter descoberto “um olho d’água chamado das Gamellas que nasce da serra que extrema com o sertão do Jaguaribe e pelo poente contesta com a fazenda do Humary (…) e pela parte do nascente com a fazenda do Brejo” e por isso requeria três léguas de comprido e uma de largura “para crear seos gados e plantar lavouras”.

A terra requerida foi concedida em 12 de fevereiro de 1752, no governo de Antônio Borges da Fonseca, tratava-se do núcleo inicial de povoamento do atual município de Triunfo: a fazenda Gamellas. Ali, tratou Domingos Jorge Rodrigues de construir casas de residência, currais de gado, roçados de plantação, lançando assim, os primeiros fundamentos da localidade.

No início do século XIX, o sítio Gamelas já estava bastante povoado. Assim, em seu território foi criada em 08 de novembro de 1803, a Companhia do Distrito do Riacho das Gamelas, Serras do Padre José Gomes e Luís Gomes, fazendo parte do Corpo de Infantaria da Ordenança da Vila Nova de Sousa. Para capitão-mor daquela companhia foi indicado pelo Senado da Câmara de Sousa o Alferes Domingos João Dantas Rothea, português, de grande prestígio e influência política, residente na povoação de São João do Rio do Peixe.

Com o passar do tempo, outras fazendas foram surgindo, e outros povoadores foram chegando, inclusive de capitanias vizinhas como a do Ceará. Podemos destacar o Capitão Agostinho José Tomaz de Aquino, da então vila do Icó, que se tornou proprietário da fazenda Picada, localidade que se constituiria povoação e mais tarde, com o nome mudado, distrito e cidade de Triunfo.

Em sua propriedade ocorreu em 17 de outubro de 1824 uma renhida batalha que a crônica registrou como o “Morticínio de Picadas”. Neste combate se enfrentaram forças republicanas e imperialistas dentro dos acontecimentos da chamada Confederação do Equador.

Os republicanos eram comandados pelo bravo Tristão de Alencar, que governava a província do Ceará, graças à ação dos revolucionários que lhe haviam entregado o governo. Estes que por sua vez tinham tropas lideradas pelo general José Ferreira Filgueiras e Maximiano Rodrigues dos Santos.

Já os imperialistas tinham o seu reduto no Icó. Ali se destacou o dito Capitão Agostinho José Tomaz de Aquino, capitão das forças restauradoras do Rio do Peixe, que aliado a José Dantas Rothea tinha em comum o interesse de defender as suas propriedades no rio do Peixe. Rothea também era muito associado a Joaquim Pinto Madeira, conhecido coronel de destaque na Revolução de 1817.

Unidos pelo mesmo espírito imperialista o Capitão Agostinho, José Dantas Rothea e Pinto Madeira organizam as tropas para combater os rebeldes republicanos liderados por Filgueiras.

Nesse ínterim, os confederados resolveram partir do Crato e “marchar sobre Pernambuco com o objetivo de fortalecer os correligionários de Pais de Andrade que já começavam a sofrer os revezes impostos pelos reforços imperialistas”.

No decorrer daquela marcha os pretenciosos republicanos liderados por Maximiano Rodrigues dos Santos, haviam chegado ao território da antiga Fazenda Picada, de propriedade de Agostinho Tomaz de Aquino e ali resolveram pernoitar. Depois de se entregarem a bebida, foram todos dominados pelo sono. Aproveitando-se daquele descuido, os imperialistas do rio do Peixe que acompanhavam de perto a marcha da tropa de Maxi valeram-se da oportunidade para atacar. Ao serem acometidos de surpresa os republicanos foram dominados pelos imperialistas. Dos 180 homens que compunham as tropas de Maxi, escaparam apenas cinco pessoas.

Enquanto uma tropa se perde, outra em que estava o frei Joaquim do Amor Divino Rabelo, o Frei Caneca, continua reagindo as investidas imperialistas, permanecendo na luta pelos ideais republicanos da confederação. Embrenhados pelas serras e matas fechadas do agreste, precisamente onde se situa a Serra de Taquaritinga em Pernambuco na divisa com a Paraíba, esta tropa recebe a notícia dos acontecimentos do rio do Peixe, conforme descreveu o próprio Frei Caneca em seu “Itinerario”:

Quando aqui chegamos, alguns homens, que se achavam no alto de uma pedra desceram e vieram ter conosco e nos deram as primeiras noticias do general Filgueiras, as quais foram que ele se achava no Umari, e que tendo mandado uma guarda avançada, esta fora abatida pelos imperiais do Rio do Peixe, com perda de mais de cem homens.

Estas notícias perturbaram de tal modo o grande líder revolucionário e já sinalizavam o que lhe preparava o destino. Às 16 horas do dia 29 de novembro de 1824, os principais líderes revolucionários foram presos e encaminhados a Recife, sendo posteriormente executados.

Os anos se passaram e muitas famílias fizeram da Picada seu lugar de moradia, a vida girava em torno da agricultura e da criação de gado. Sem recursos médicos, as pessoas morriam por não receberem tratamento adequado para as suas enfermidades. Nos momentos em que se proliferavam as conhecidas “pestes”, muito não havia o que fazer, na maioria dos casos, “rezar” era uma das únicas opções.

Depois dos surtos de varíola e cólera que dizimaram milhares de sertanejos nos anos cinquenta dos oitocentos, viu-se a população do interior novamente atacada pelo “cholera morbus”, conhecido também como o mal do Ganges e se espalhava como rastro de pólvora pelas províncias nordestinas. A população que compunha a então Freguesia do Rosário de São João, estava em constante expectativa, especialmente nas localidades, como Canto do Feijão e Picada, fronteiriças à Província do Ceará, onde irrompera a peste de forma devastadora.

Enquanto grassava a epidemia, a população utilizava-se dos “recursos religiosos” na tentativa de abrandar a ira dos céus. Celebrações de cunho penitencial realizadas nas igrejas e capelas tomaram as ruas e estradas nos mais variados pontos da freguesia.

Na povoação de Picada, um beato, conhecido como caboclo Manoel Bernardo temendo que a doença atingisse a localidade recorreu ao Menino Deus, fazendo-lhe uma promessa de que se o lugarejo fosse poupado de tal calamidade, ele ergueria uma pequena capela e celebraria a sua festa todos os anos.

Tendo assim alcançado a graça, o caboclo Manoel saiu pelas redondezas pedindo esmolas e levantando recursos para tal construção que em 1874 ainda estava inacabada, não passando de uma “casa d’oração” como atestava o padre Manoel Vieira da Costa e Sá (Padre Costa), administrador da Freguesia de Nossa Senhora do Rosário de São João do Rio do Peixe, da qual Picada fazia parte.

Com o passar dos anos ocorreram melhoramentos no edifício que acabaram por lhe conferir o atributo de “capela”. Seu maior benfeitor, caboclo Manoel Bernardo, ao concluir todo o trabalho de construção,

convidou o Conego Manoel da Costa e Sá então vigário da Paróquia de São João para celebrar uma missa em ação de graças e dar a benção litúrgica da Igreja. Na ocasião da benção, ele dirigiu a palavra as pessoas ali presentes e declarou que daquele dia em diante ali não seria mais sitio Picada e sim Triunfo.

Era o dia 24 de junho de 1881, data que fica registrada como memorável para a história de Triunfo. Anos depois, em 1937 a “primitiva capela foi demolida e reconstruída no mesmo local para melhor atender aos anseios do povo que exigia que a referida capela fosse um templo de maiores dimensões”. Em volta deste novo templo surgiram várias residências e prédios comerciais. Muitas pessoas se deslocaram para morar na povoação. Até mesmo a feira que outrora acontecia no Distrito da Barra do Juá, foi transferida para Triunfo.

Na década de 50 era notório o desenvolvimento da localidade. A Câmara Municipal de São João do Rio do Peixe – lugar onde estavam os representantes políticos triunfenses – voltava o olhar para a florescente vila, aprovando projetos que já remetiam a uma futura cidade. Em seus habitantes já se formava o desejo pela independência política, algo favorecido pela onda emancipatória em que vivia o estado da Paraíba.

Segundo Celso Mariz na Assembleia Legislativa Estadual, os deputados “não puderam resistir a essas reivindicações e deram acolhida aos apelos formulados pelas suas bases eleitorais, iniciando a avalanche de projetos que determinaria o retalhamento do território paraibano”.

Iniciam assim, as mobilizações triunfenses que objetivavam o desmembramento do território do município de São João do Rio do Peixe. Este movimento é arregimentado pela elite agrária do lugar, em sua grande maioria era produtora de algodão e que na época, experimentava o seu apogeu.

Entretanto, as pretensões da vila de Triunfo esbarravam num impedimento legal: para pleitear a elevação à cidade, precisava antes ascender à condição de distrito, status já ocupado na região por Brejo das Freiras, pelo fato dali existirem o Hotel e suas famosas fontes termais.

Os vereadores que representavam os interesses dos habitantes de Triunfo no legislativo sãojoanense cuidaram de elaborar um projeto de lei, que revogava a criação do Distrito de Brejo das Freiras e criava o de Triunfo. A justificava principal para tanto, era sem dúvida, o desenvolvimento adquirido pela próspera vila, em termos populacionais e econômicos. Assim, em 24 de junho de 1957 era sancionada a Lei n° 145, assinada pelo então prefeito Manuel Fernandes Dantas.

Vencida esta etapa, a luta agora se daria no plano do legislativo estadual, que como dito anteriormente, já estava a algum tempo recebendo por parte dos distritos as suas petições emancipatórias. Nesse sentido, se fazia necessário o apoio de um deputado que simpatizasse com a causa triunfense e assim, levasse a bancada da Assembleia Legislativa Estadual a proposta de sua emancipação política.

A grande força para tanto foi do Deputado Acácio Braga Rolim, cajazeirense, que esteve presente na memorável reunião de 30 de agosto de 1959, realizada na casa de Joaquim Moreira e Silva, situada atualmente a Rua Sete de Setembro e habitada pela sua nora Maria Alves. Nesta importante reunião foi nomeada uma comissão formada pelos senhores Joaquim Moreira e Silva, Raimundo Dantas de Oliveira, Raimundo de Moura Mousinho, Antônio Adriano e Francisco Mangueira, para de comum acordo traçarem o roteiro divisório do novo município, levando em consideração os lados norte e nascente, num prazo máximo de três dias. Assinaram a ata da reunião muitas pessoas, entre políticos, professores, agricultores, enfim, os que almejavam a independência triunfense.

Finalmente, em 20 de dezembro de 1961, o governador Pedro Moreno Gondim sanciona a Lei 2.637, criando o município de Triunfo. A publicação da presente lei no Diário Oficial do Estado da Paraíba se deu no dia 22 de dezembro seguinte, e a instalação do município ocorreu a 28 do mesmo mês e ano. O primeiro ano de governo local foi exercido por Antônio Francisco Duarte de Aquino (Atécio) por indicação do governador. Nesse período não funcionaram os trabalhos da Câmara Municipal. O Legislativo triunfense só veio a ser instalado em 10 de novembro de 1962, juntamente com a posse do primeiro prefeito eleito, o senhor João Ferreira de Alencar.

O ano seguinte de 1963 também ficaria na história de Triunfo, com a elevação a condição de Igreja Matriz a antiga capela do Menino Deus, por Decreto Diocesano do Bispo de Cajazeiras, Dom Zacarias Rolim de Moura de dia 15 de janeiro daquele ano.

Com provisão diocesana da mesma data, era nomeado como primeiro vigário, o Cônego Manoel Jácome, que também assumia a Paróquia de São João do Rio do Peixe. Foi este sacerdote que organizou os primeiros movimentos religiosos e cuidou em dar mais vigor a tradicional festa do Menino Deus, que se realiza desde a década de 70 do século XIX. Esta festa continua atraindo visitantes de toda a região. Muitos deles pagando promessas, trajando com vestimentas cor de rosa, assim como é vestida a Imagem do Menino Deus, vinda de Roma, no início do século XX.

A intenção deste trabalho foi apresentar a partir das diversas fontes documentais, sejam administrativas, eclesiásticas, judiciárias e civis, a realidade dos fatos ocorridos no passado histórico do atual município de Triunfo, retificando proposições tão amplamente difundidas nas produções da historiografia local, entre as mais recorrentes a de que “o lugar Picada passou a se chamar Triunfo em decorrência da vitória imperialista sobre as tropas republicanas de 1824”. Como se evidencia dos manuscritos originais e de época, a designação Picada perdurou até o dia 24 de junho de 1881, quando foi oficialmente mudada para Triunfo pelo conhecido Padre Costa, numa forma de homenagear ao padroeiro Menino Deus, por ter feito “triunfar” os habitantes do lugar ante a terrível peste da cólera.

Outras informações interessantes também foram destacadas neste artigo graças à documentação procedente do Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, catalogadas pelo Projeto Resgate Barão do Rio Branco do Ministério da Cultura. Através dos documentos coloniais disponibilizados por este projeto, temos ampliado os horizontes com novas perspectivas para a escrita da história do sertão paraibano, revisitando e alargando as produções existentes.

Para a Picada de bacamartes e para o Triunfo de fé, registramos nas crônicas do tempo a história de seu passado, numa contribuição historiográfica ao seu povo que sempre se mostrou guerreiro.

 

Wlisses Estrela de Albuquerque Abreu

Prof.Ms.História PPGH/UFCG

wlisses_net@hotmail.com

 

NOTAS:

  1. Há de se destacar que outros proprietários possuíam em sesmaria partes de terras que compõem o atual município de Triunfo, como os padres Manoel e Francisco Araújo de Carvalho, antigos senhores do sítio Brejo e que fizeram doação de suas terras ao Convento da Glória no Recife.
  2. A Serra do Padre José Gomes trata-se do atual município de Bernardino Batista. AHU-Paraíba, Mç.40. AHU_ACL_CU_014, Cx.42, D.2936.
  3. A Confederação do Equador foi um movimento revolucionário que encabeçado por Pernambuco havia se alastrado pelas províncias vizinhas do Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. Fazendo oposição à monarquia absolutista de Dom Pedro I, o movimento almejava a criação de um estado confederado de caráter republicano. Um dos seus principais líderes era o Frei Joaquim do Amor Divino, o Caneca.

 

REFERÊNCIAS:

CARTAXO, Rosilda. Estrada das Boiadas. Roteiro para São João do Rio do Peixe. João Pessoa: Nopigral, 1975. p. 222.

ITINERARIO que fez Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, saindo de Pernambuco a 16 de setembro de 1824, para a província do Ceará Grande.

Livro de Tombo 1863/1999, Fls. 87 vs.: Paróquia de Nossa Senhora do Rosário de São João do Rio do Peixe/PB.

Livro de Cartas e Circulares Pastorais 1874 a 1883: Fls. sn° vs.: Paróquia de Nossa Senhora do Rosário de São João do Rio do Peixe/PB.

Livro de Batismo n°03 – 1874/1876 – Fls. 32vs. – 1° assento – 01/06/1874: Paróquia Nossa Senhora do Rosário: São João do Rio do Peixe/PB;

Livro de Casamentos 1/B – 1874/1883 – Fls. 6, 4° assento; Fls. 54 vs., 7° assento: Paróquia Nossa Senhora do Rosário: São João do Rio do Peixe/PB. [Capela do Menino Deus da Picada].

MARIZ, Celso. Memória da Assembléia Legislativa. João Pessoa: 1987. p.120.

REVISTA 50 anos Triunfo. Prefeitura Municipal de Triunfo. Gráfica e Editora Real: 2011. p. 05

REVISTA Trimensal do Instituto Histórico, Geographico e Etnographico do Brasil, fundado no Rio de Janeiro debaixo da imediata protecção de S.M.I. O Senhor D. Pedro II. Tomo XXV. Rio de Janeiro, Typ. De D. Luiz dos Santos, Rua Nova d’Ouvidor n. 20, 1862. pp. 104.

TAVARES, João de Lyra. Apontamentos para a história territorial da Parahyba. Edição Fac-similar, Coleção Mossoroense, Volume CCXLV, 1982. p.216.